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Análise # GUITAR HERO LIVE

Publicado por Renato em Games · 3/12/2015 17:25:00




"Hey Mãe, eu tenho uma guitarra elétrica..."
Fonte: Por Pablo Miyazawa (IGN BRASIL)

Sempre fui uma presa fácil para games musicais como Guitar Hero e Rock Band. Assim como milhões de outros mortais, por anos fui convencido pela bizarra ideia de tocar guitarras de plástico e montar riffs com combinações de botões coloridos. Lembro de ter elaborado diversas constatações elogiosas sobre esse tipo de game: é o "air guitar" levado à sério, o perfeito passatempo para festinhas embriagadas, uma maneira mais lúdica de se consumir música, e por aí vai. E assim foi durante cinco anos até que, um belo dia, ninguém aguentava mais jogar esse negócio. Nem eu.

Como sempre acontece com as manias arrebatadoras que se propagam rapidamente, a onda dos jogos musicais não durou tanto quanto a indústria dos videogames desejava -- o último Guitar Hero saiu em 2010. Mas esse "sumiço" foi algo necessário, e digo isso na condição de um jogador que investiu muito tempo e dinheiro nesses produtos. Foi bom ficar uns anos de molho, acumulando distanciamento suficiente para só guardar boas lembranças e sentir saudade. Hoje, é como se eu estivesse pronto para aproveita a onda novamente. Se desde 2010 eu me tornei uma pessoa diferente, dá para dizer isso de Guitar Hero também.

Fico pensando em como seria minha argumentação se o novo Guitar Hero não tivesse modificado drasticamente o tradicional conceito da guitarra de cinco botões coloridos. O novo instrumento, exclusivo e inédito, traz dois grupos de três botões divididos entre brancos e pretos. Com seis teclas, as combinações possíveis se expandem, obrigando o jogador a fazer mais “acrobacias" com os dedos, como pestanas e acordes cruzados e invertidos. Visto de fora nem parece uma grande mudança, mas jogando, a história é outra: a nova composição modifica tanto a experiência que é como se tivéssemos desaprendido a jogar após todos esses anos. É um choque, mas um choque bom.

Para fazer uma analogia com a vida real, é quase como ser um músico destro tentando dominar uma guitarra para canhoto. Leva uma boa hora de jogo para o cérebro entender como a nova configuração de notas funciona, mas o resultado da investida é gratificante. Também é digna de aplausos a intenção da Freestyle Games de criar novas complexidades em um setor que a maioria do público já havia dominado -- o também recém-lançado Rock Band 4, por sua vez, continua igualzinho a antes. Já Guitar Hero Live consegue proporcionar aos veteranos uma estranha sensação de familiaridade e inadequação simultâneas. O que é apenas uma razão a mais para se experimentar o novo Guitar Hero de coração aberto.

Aliás, é bem fácil diferenciar Guitar Hero Live de Rock Band 4 (leia o review aqui). O primeiro é uma experiência praticamente individual, ainda que sempre online, enquanto o segundo foi feito para se jogar entre amigos presentes, sempre offline. E há o fato de Rock Band 4 ser compatível com todos os instrumentos antigos, já que a configuração de cinco botões coloridos se manteve intacta. Já Guitar Hero Live não funciona com os velhos equipamentos, porque depende de uma guitarra completamente nova. E não, não é possível jogar com o joystick, como era possível na geração anterior de consoles.

É improvável que Guitar Hero descarte a nova configuração de botões monocromáticos e retorne às cinco cores em jogos futuros, mas é bom que isso não aconteça, porque é a primeira vez que tocar uma guitarra plástica se aproximou da experiência real -- inclusive, mais até do que em Rocksmith, que se dava ao luxo de utilizar um instrumento de verdade. Músicos da vida real vão se encontrar melhor em Guitar Hero Live, e é incrível que esse avanço tenha sido alcançado quase 10 anos depois do lançamento do primeiro game.

Guitar Hero Live tem apenas dois modos de jogo: o GH TV e o GH Live. O primeiro é o mais próximo possível de um "free play", com todas as músicas do repertório à disposição em um catálogo de canções. Ou quase isso: a quantidade de jogadas é limitada, e é preciso fazer muitos pontos para ganhar créditos que dão direito a novas chances. Quem preferir pode gastar dinheiro real em novas jogadas, mas duvido que alguém se preste a fazer isso. E vale lembrar que o GH TV é completamente online e fornece as suas músicas por streaming ao jogador. Ou seja, se tentar jogar offline, este modo não estará disponível.

Apesar da obrigatoriedade da internet, o GH TV tem méritos: ele oferece uma maneira incrível e criativa de reviver os bons tempos das emissoras musicais ao estilo MTV. Além do "song catalog", o modo oferece uma programação de partidas online temáticas divididas por estilos, com horários certos para começar e acabar. Os programas são “ao vivo”, o que significa que outros jogadores do resto do mundo estarão participando com você. Por ser imprevisível (não dá para saber quais músicas serão tocadas), a experiência é dinâmica e divertida -- mas é inevitável que você seja obrigado a tocar músicas ruins de vez em quando. Aviso que quem comprar Guitar Hero Live sonhando em tocar os clássicos do rock pode sair um pouco decepcionado, já que o foco do repertório está em artistas contemporâneos (muitas faixas nem poderiam ser classificadas como rock, mas tudo bem). Apesar de não oferecer músicas extras para se comprar no futuro, o game tem disponibilizado novidades no repertório em streaming de tempos em tempos.

Outra jogada certeira do novo Guitar Hero foi trazer os videoclipes das músicas do setlist. Apesar de ser difícil para o guitarrista prestar atenção a qualquer coisa além das notas, as outras pessoas da sala terão algo a mais para assistir e comentar. Os clipes são em maioria originais da época (quase sempre em baixa resolução) e criam um interessante passeio por estéticas variadas e de gosto sempre duvidoso. E são nesses momentos em que a nostalgia da MTV bate mais forte.

A outra metade de GH Live compartilha o mesmo nome do jogo: GH Live, o modo, é um show à parte (e sim, o trocadilho é inevitável). Jogamos na pele de um guitarrista sem rosto, novato e versátil, que pula de banda em banda, estilo em estilo e palco em palco, buscando reputação, sucesso e uma conta bancária mais animada. Sua perspectiva é vista por meio de uma câmera em primeira pessoa diante de interpretações de atores reais (semelhante ao do novo Need for Speed), criando situações em cima do palco que são sensíveis ao contexto. Explicando: se você tocar bem, banda e plateia irão se empolgar e responderão positivamente aos seus esforços; se começar a errar muito, porém, verá hostilidades de todos os lados. É só voltar a acertar as notas para os aplausos soarem novamente.

Essa transição de humores acontece de forma natural e surpreende pelo cuidado técnico e a criatividade das tomadas de câmera (a atuação canastrona do elenco é um detalhe insignificante). Dadas as devidas proporções, a sensação até chega perto de se estar diante de cem mil pessoas em uma arena a céu aberto, ou tocando para algumas centenas de bêbados em um clube fechado e suarento. A Freestyle Games fez bonito ao conseguir capturar o espírito de uma performance ao vivo e transportá-lo para o jogo de uma maneira crível e pouco constrangedora. Também são dignos de nota o cuidado na criação das bandas fictícias, na seleção dos músicos/atores que as interpretam (que tocam mesmo, aparentemente) e na reprodução da atividade típica de um backstage. Infelizmente, é difícil reparar nesses detalhes saborosos quando se está suando para não errar nenhum acorde invertido nos botões bicolores.

O GH Live poderia ser bem definido como o modo “História” do jogo, isso se houvesse mesmo uma história ali -- e não há. Não há motivo aparente para você trocar de banda a cada novo show, mesmo tocando bem, e a interação do seu personagem com seus colegas de grupo é a mais fria possível, descontados alguns sorrisinhos da baixista, um gesto empolgado do baterista e um ou outro meneio de cabeça do roadie. Atravessar fase após fase também pode ser sacrificante, já que as 42 músicas disponíveis nesse modo representam a pior fatia do repertório geral de Guitar Hero Live. Talvez jogadores mais jovens e com gosto musical mais eclético apreciem os setlists, mas velhos roqueiros vão sofrer com a falta de faixas com mais tradição.

Foi um retorno triunfal, o que não significa que Guitar Hero Live seja perfeito. De modo geral, essa é uma experiência um pouco mais engessada do que as versões anteriores -- o que é curioso, visto que os dois modos de jogo disponíveis realmente inovam. Guitarristas acostumados à liberdade descomplicada dos antigos Guitar Hero podem se sentir um pouco intimidados pelo excesso de regras, sistemas de pontuação, obrigações e restrições. A obrigatoriedade do online também é algo problemático em se tratando de nossas conexões de internet nem sempre confiáveis. E não dá para esquecer da falta que faz um multiplayer local menos combativo e mais colaborativo -- em partidas contra um amigo, as duas linhas de guitarra são idênticas, o que não tem graça nenhuma. E não seria nada mau poder tocar contrabaixo em algumas canções. São pequenas coisas que fariam de Guitar Hero Live uma experiência ainda melhor e poderiam ser levadas em conta em uma possível continuação. De nada, Activision.

Quem deve jogar este game?
Fãs das antigas da série vão se sentir em casa, ao mesmo tempo em que experimentam a sensação de aprender tudo de novo. O repertório não privilegia muito os clássicos, o que pode não agradar tanto aos jogadores mais velhos, mas a boa quantidade de músicas recentes acertam em cheio o público jovem e eclético. Para quem nunca se arriscou no mundo das guitarrinhas de plástico, essa é a oportunidade rara de experimentar uma verdadeira evolução no gênero.

O Veredicto
Parecia impossível ressuscitar a febre dos games musicais, mas Guitar Hero Live fez sua parte. Muito desse mérito vem da nova configuração de botões da guitarra-joystick, que ajuda a trazer novidade à uma experiência que parecia ultrapassada. O modo de show ao vivo tem potencial, enquanto o GH TV também parece vislumbrar algum tipo de futuro do entretenimento multimídia (infelizmente, ele só funciona online, o que não é algo tão garantido no Brasil). Por ter coragem de investir em inovações, Guitar Hero Live representa uma segunda chance de um gênero que parecia morto e enterrado, o que prova que às vezes tudo o que precisamos é de tempo para repensar a vida.

NOTA 9 (Incrível)
Uma segunda chance merecida a um gênero que parecia morto e enterrado, Guitar Hero Live inova sem perder a essência cativante da franquia musical.

+Ótima guitarra
+Sensação de imersão do modo GH Live
+A nostalgia proporcionada pelo modo GH TV

-Modo carreira é desinteressante
-Repertório pouco saboroso
-Falta um multiplayer colaborativo



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